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"As revoluções são a locomotiva da história". Karl Marx

Trocando figurinhas


Por Monique Lemos, no site da UJS.

Desde criança, sempre gostei de colecionar álbuns da Copa e papéis de carta (sim, eu sou da época em que se tinham pastas e mais pastas de lindos papéis de carta). Até colecionei alguns álbuns do Campeonato Brasileiro, poucos, não eram o meu forte. Mas de quatro em quatro anos, estava lá, eu, minhas figurinhas e meu álbum esperando ser completado. E só tinha um jeito de fazer isso: trocando figurinhas.
Na escola, na rua, entre os primos, no bafo-bafo… Que diversão!
Então, trocar figurinha é a única forma de completar nosso álbum. Por isso, eu queria te convidar para trocar umas figurinhas sobre a Copa.
Não. Não é com você que defende que não vai ter Copa, porque o Brasil está no abismo, e que está tudo uma porcaria, que eu quero dialogar. Nós não vivemos no mesmo mundo.
Eu quero trocar com você, que viu seu filho e filha entrar pela primeira vez na universidade, com você que viu o Bolsa Família distribuir renda e empoderar as mulheres, com você que viu o Brasil mudar pra melhor, e que por isso mesmo, consegue enxergar que ele pode mais, que nós podemos mais!
Pra você, que vê os hospitais públicos nas péssimas condições de funcionamento e a escola brasileira na “era do cuspe e giz”, uma primeira figurinha pra trocar: isso não tem nada haver com a Copa!
Não foi tirado nenhum centavo sequer dos orçamento das áreas sociais, pelo contrário eles cresceram. Aquém da necessidade, vocês dirão. E eu acrescentarei, muito. Mas não por causa da Copa. O problema é outro. A previsão para 2014 é que sejam destinados 1,002 trilhões reais para o pagamento de juros e amortização da dívida, comprometendo cerca de 42% do orçamento. Esse é o maior entrave para o desenvolvimento do Brasil.
Segunda figurinha: os bilhões gastos nos estádios. A Copa do Mundo consumirá de investimentos, 26 bilhões de reais, mas 70% desse recurso são obras de infra-estrutura (mobilidade urbana, aeroportos, obras do PAC) e mesmo que algumas não fiquem prontas no prazo, o Brasil continuará aqui depois da Copa. Ou seja, esse é um grande legado e comprova que os que dizem, que se teria priorizado a construção dos estádios, em detrimento de outras obras, fala besteira.
E uma última figurinha pra gente trocar, é a importância do futebol na formação do povo brasileiro. Aqueles que acham que a Copa é o “circo” para o povo não perceber seus problemas, para iludir as pessoas, não entenderam esse elemento fundamental. O futebol faz parte da história do nosso povo e continuará a arrastar multidões aos estádios como fazem o Santinha, o Mengão, o Corinthians, o Inter, o Grêmio, o Palmeiras… É da nossa cultura, tá no nosso sangue.
Defender a Copa não é negar os problemas do país, mas precisamos enxergar os lugares que eles realmente ocupam. Pra não enfrentarmos as consequências e não as causas.
Por exemplo, o problema da elitização do futebol, do padrão FiFA, é real, mas não é um problema da Copa. Prova disso, é que o aumento abusivo no preço dos ingressos está ocorrendo mesmo em lugares onde não haverão jogos na Copa do mundo.
Então não ter copa resolve o problema da elitização? Não! Para isso, será preciso uma intervenção do poder público e muita mobilização da sociedade.
Ir as ruas contra os reais problemas brasileiros, como os juros altos, a dívida externa, a reforma política e dos meios de comunicação, é mais do que legítimo, é necessário. Então, ocupemos as ruas, antes, durante e depois da Copa, enfrentando os inimigos reais.
Que venha a Copa, que venha o hexa e que venha meu álbum completo. Aliás, alguém aí, tem figurinha pra trocar?

Cinquenta anos e outra história


Por Nilson Vellásquez.

50 anos. Esse foi o tempo em que jovens de todo o Brasil foram às ruas em prol de algo que para nós tem sido essenciais na constituição de um país forte e soberano: a democracia. Há meio século o Brasil encontrava-se numa encruzilhada histórica: de um lado, a necessidade de dar vazão às necessidades da maioria da população brasileira, representadas na reformas de base, propostas por João Goulart; do outro, o enfrentamento ao “espectro do comunismo” feito por uma aliança civil-militar-empresarial, cujos setores da mídia contribuíram com grande responsabilidade para momentos aviltantes da história de nosso país.

Foram vinte anos em que as liberdades individuais e coletivas eram ameaçadas cotidianamente; em que jovens como nós, não poderiam se reunir, manifestar suas vontades e anseios de uma juventude que conviveu com décadas de grande efervescência cultural e de grandes manifestações políticas mundo afora – como o maio de 68 na França.

O Brasil, assim como demais países da América Latina, foi alvo da experiência do Imperialismo estadunidense, cuja representação maior era a “Doutrina Monroe”, “a América para os americanos”. Essa perspectiva era oriunda da tentativa de uma classe dominante acabar com as conquistas obtidas pela classe trabalhadora pós Revolução de 1917. Direitos trabalhistas, das mulheres, de negros e demais setores da população, eram uma afronta à burguesia internacional.

Mesmo assim, com todos esses reveses, a juventude brasileira não se calou diante da repressão e da retirada de direitos. A juventude se manifestou na “’Passeata dos 100 mil”, se manifestou nos festivais de música, no cinema, nas peças engajadas como “Roda Viva” de Chico Buarque. A juventude cantou e desenhou através do CPC da UNE. Morreu e fez viver em cada um o sonho por um país democrático. Foi nessa toada que jovens foram perseguidos na Guerrilha do Araguaia; foi nessa toada que Edson Luís, de 16 anos, morreu a tiros. E foi por isso que a juventude permaneceu em alerta até a grande vitória das Diretas Já, da Constituinte com voto – este que fora proibido – aos 16 anos.

Hoje, numa nova encruzilhada histórica, em que é preciso decidir se damos continuidade às mudanças vividas pelo país nos últimos 11 anos, ou se retrocedemos àqueles que sob verniz democrático venderam a nação na década de 90. É preciso retomar as respostas aos anseios da maioria da população. Daqueles que querem ver um país com direitos a todos e a todas, em que as mulheres não sejam estupradas pelo simples motivo da roupa que vestem, em que homossexuais não precisam viver sob vigília, qual vivia-se na Ditadura.

Por isso, a juventude de hoje, filha daqueles que derramaram sangue na Ditadura, vai às ruas pedir pra que sejam realizadas as reformas que estão atrasadas no país há, no mínimo, um século. Reforma urbana, política, dos meios de comunicação, tributária, educacional, reforma agrária.

Hoje a juventude vai às ruas para que se implemente o Plano Nacional de Educação que garanta o investimento de 10% do PIB para a educação. Reformas que garantam a cidade para todos, e que garanta um país que reflita a heterogeneidade de uma população e de uma juventude que quer mais. De uma juventude que nunca se negou a ir pras ruas, em qualquer momento: seja naqueles de tempestade profunda, ou nos períodos cuja luta é por mais – MAIS democracia; MAIS desenvolvimento; MAIS direitos; MAIS Brasil, para MAIS brasileiros!

Original: http://versosdopovo.blogspot.com.br/